sábado, outubro 09, 2004


Um facto político, com certeza

MRS e PSL, vaidosos pirilampos, inflados na gafa de protagonismo, coabitaram sempre - em diferentes hemisférios do PSD - entre intermitentes e luzentes acrimónias públicas, quer por dissemelhantes convicções, quer por meras e politiqueiras caturrices.

Enquanto cronista semanal na TVI, MRS camuflava o seu hábito político, "travestindo-se" de professor politólogo e comentando a bel-prazer as peripécias da semana com a mestria de um hábil comunicador e a ponderabilidade de um melhor futurólogo. Com o supremo cuidado de transformar o solilóquio em amena cavaqueira de cidadão genuinamente preocupado com as prestações de quem governa e seu impacto nos governados, elevou a dica ex cathedra a referência nacional, conjecturando, conjecturando muito, conjecturando sobre tudo e nunca sobre nada.

Numa inábil, inepta e, sobretudo, amadora reacção, PSL mandatou o seu Apoderado dos Assuntos Parlamentares para proferir as barbaridades que se conhecem, nomeadamente a intenção de participar à AACS a ausência do princípio do contraditório, como confesso queixoso. Apesar de fort amusant – já agora, por que não reivindicar o princípio da economia processual, exigindo a condensação das diatribes marcelistas dos habituais quarenta e cinco para sintéticos quatro minutos -, a sua declaração configura uma sinistra tentativa de cerceamento da liberdade de expressão. O primeiro e, se calhar, o único facto político de relevância.

Com um facto destes, que engenheiro, presidente de um grupo que actua no sector das telecomunicações/media/conteúdos, onde a dependência em relação ao Estado é absurda, não teria, por antecipação, o cuidado de dar uma palavrinha, discreta qb, ao Professor, por forma a não repercutir qualquer atritozinho em futuras e prementes negociações? Seriam precisas as alegadas manobras de bastidores que tanto barulho de fundo despoletaram por aqui, ali e acolá?

E, por outro lado, teria alguma vez o nosso mais profícuo criador de factos políticos, de créditos bem firmados e basto sentido de oportunidade, a inabilidade, a ineptidão e o amadorismo de deixar escapar tão apetitoso presente de rentrée e malbaratar os calculados benefícios de quatro anos e meio de capitalização política?

A gravidade deste caso não está toda na pública pressão do ministro, ou no seu processo de intenção. Fica (mal) acompanhada pela convicção geral de que demitir um ministro é prova de fraqueza (nem a oposição externa se deu já ao trabalho de credivelmente a pedir, foi mero recurso de oposições internas a quem não ficava bem exigir mais). Mas a verdade é que era essa a boa decisão estratégica a tomar, cerceando o facto e engordando o político. Seria a demarcação. Que não houve. E, uma vez dirimido o barulho das luzes, lá estaria um gabinetezinho na João XXI à espera do apoderado.